Por Patricia Penna

A Redação do Portal T&E conversou com Aline Zonta, uma brasileira que está sentindo na pele o caos provocado pelo COVID19 na Itália. 

Gubbio, Umbria -ITA (Divulgação) –  Coronavírus na Úmbria: 810 casos positivos e 20 mortes. 190 pacientes hospitalizados, 46 dos quais estão em terapia intensiva.

Confira o seu relato desde que surgiram os primeiros casos : 


Chegamos na Itália em Agosto/19, sem nunca ter feito sequer uma viagem internacional, mas viemos com objetivo de montar um escritório físico, pois trabalhamos com reconhecimento de cidadania italiana no Brasil e precisávamos de um local na Itália para expandir os negócios. Sendo assim, questões como tremor de terra, vulcão, neve e afins foram sim ponderados, mas nunca imaginaríamos passar por uma situação de contágio como a que o mundo se depara. Assistindo o noticiário, me abalei com a notícia de um vírus de alto contágio que levara muitas pessoas à morte em Janeiro na China.

A informação assustava, mas a vida seguia o curso normal aqui na Itália até a divulgação da suspeita de um primeiro caso no país. E, em questão de dias, tudo mudou. Embora resida na região Central da Itália e as áreas mais atingidas estavam sendo o Norte e Sul, as incertezas e a rapidez do avanço pelo contágio eram assustadores! Lembro-me que no dia 23/02 recebemos a notícia de que fora decretada “zona rossa” – ou seja, zona vermelha – nas regiões mais atingidas e já com mortes confirmadas pelo COVID19. Na TV, as notícias pioravam! A cidade em que moro, entretanto, por não conter casos positivos até aquele momento, NÃO aderiu a qualquer protocolo de segurança e prevenção por dias. É aquela velha, conhecida e verídica história de que “não há motivos para desespero”. Hoje, falando com brasileiros, ouço a mesma coisa que um dia ouvi aqui também!

Em questão de 2 semanas, numa segunda feira à noite, o Primeiro Ministro Giuseppe Conte compareceu em rede nacional e informou que o contágio tinha atingido toda a Itália de forma veloz e incontrolável e que seriam então decretadas medidas de segurança em toda a Itália. Além de muitas outras considerações, a ordem era clara: estava proibido circular sem justificativa válida não só entre as províncias, mas também dentro da própria cidade.

Ruela gracinha em Assis (Ita) (Jenifoto/iStock)

As justificativas válidas, claro, englobam a necessidade de comprar alimentos e medicamentos. No dia seguinte, saímos para comprar mantimentos. Fomos em 3 supermercados até encontrar o que precisávamos. As prateleiras vazias era algo visto somente pela TV, mas jamais vivenciado por mim. Compramos o suficiente para uns 20 dias! Passamos em farmácias procurando máscaras e álcool gel, porque a recomendação era de que não saíssemos sem máscara. Não encontramos ambos em lugar algum. Desde então, não saímos mais de casa. Estamos esticando ao máximo as coisas, regulando as porções a serem servidas para evitar sairmos para novas compras.

Estamos no ápice da curva de contágio e não sabemos até quando durará a quarentena. A projeção é de regresso nos números nas próximas 2 semanas!! As pessoas contaminadas estão sendo isoladas nos hospitais e quando chegam em óbito já são enviadas ao necrotério sem velório ou contato com a família.

É uma medida drástica, mas necessária, já que não se sabe o alcance de propagação do vírus. O necrotério tem capacidade para 25 corpos por dia e não está conseguindo zerar a demanda. Não há esse ou aquele imune: todos estão suscetíveis ao contágio. Pessoas de idade e que estejam no grupo de risco por problemas de saúde estão terminantemente proibidas de circular na cidade. Os médicos e enfermeiros trabalham sem cessar e os hospitais não têm lugar para todo mundo. Todo o comércio está fechado, restando abertos somente super e pequenos mercados dos bairros, além das farmácias. Somente! Não há pessoas andando pelas ruas à esmo.

O povo italiano é obediente e seguem a risca as regras do Governo sem questionar ou se rebelar. A Polícia está cumprindo seu papel e fiscalizando cada transeunte, que deve portar uma carta impressa do site do Ministério Interno que contenha uma justificativa válida para aquele cidadão estar na rua – sob pena de multa, prisão domiciliar e até mesmo reclusão, se comprovado que este indivíduo tenha colocado a vida de pessoas em risco (caso for positivo ao vírus e estiver em circulação). Aos poucos, o mundo começou a anunciar casos e mais casos até que chegou a vez do meu amado Brasil. Infelizmente, até o momento desta matéria, não se tem descoberto vacina ou remédio testado e que tenha surtido efeito seguro e incontestável para conter a epidemia.

Quem diria que 2020 começaria desta forma?

Os reflexos sentiremos depois, porque hoje devemos prezar pelas nossas vidas e pela vida do próximo ficando em casa. Somente isso podemos fazer! Logicamente, as preocupações abalam e nos sucumbem a não dar atenção e à sair para o trabalho sim, obviamente! Os prejuízos serão sentidos. E, mundialmente, muito haverá que ser feito para recuperar a economia, mas nada se pode fazer para recuperar a vida! Se preservem e respeitem as orientações do Ministério da Saúde!

Que Deus abençoe a vida de todos nós.

Aline Zonta e seu filho, pelas ruas de Úmbria antes do caos que se instalou por lá . – Foto: Arquivo Pessoal

Aline Zonta – É ítalo-brasileira, atualmente reside em Perugia – capital da Umbria na Itália; advogada sênior no Brasil onde atua em seus escritórios em São Paulo e na Bahia, além de CEO na empresa Stazione Itália, cujo foco é cidadania Italiana.

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